Vejam só: classificaram-se para as finais Usina São João (com a melhor campanha), Rio Preto, MAC, e Paulista de Jundiaí. Nesse quadrangular apenas um clube conseguiria o acesso a primeira divisão. Mas já uma dúvida instalava-se em nosso espírito. O sujeito maqueano já não sabia se era ou não uma besta chapada ou, na melhor das hipóteses, uma semibesta. A campanha de 87 viria clarificar o problema. O Usina São João tinha grana a beça e sobrando. Ostentava seu luxo através de seu presidente: Farah. O sujeito tinha muita influência com os magnatas da federação. O time queria subir de todo jeito, e tinha o money pra isso,
O primeiro jogo do nosso glorioso tigrão foi numa quarta a noite. O começo de qualquer partida é uma janela aberta para o infinito. Vencemos o Paulista por um a zero, no sufoco. A moral que o Marília carregaria dali em diante por obrigação deveria estar escrita aqui. No segundo jogo em Araras, o Usina era favoritíssimo. Disparadamente a frente. Porém, ao soar o apito inicial, todas as possibilidades passam a ser válidas. Como o meu amigo citado, cada um de nós era um maqueano feliz e surpreso ao final da partida. O MAC venceu por dois tentos a um, e passou de surpresa ao verdadeiro favorito a conquistar o acesso a elite naquele ano. O próximo jogo foi em Rio Preto, os jogadores ainda estavam perfilados e trêmulos. Jogaram muito, e muito melhor que a equipe rio-pretense. Voltamos para a nossa terra com o ótimo empate fora de casa pelo placar de um a um.
No returno, vencemos em casa o Rio Preto num jogo apertadíssimo. Gabriel, outro grande amigo, vendedor de amendoim e ilustre torcedor estava numa euforia contagiante. O resultado final foi dois a um para nós. Vale ressaltar que os adversários corriam o impossível em campo, com o incentivo financeiro do Usina, Farah e sua companhia limitada. Ou ilimitada. Como quiserem.
CHEGOU O JOGO FATÍDICO. Foi numa quinta feira á tarde. O efeito da cidade contar com um clube como o MAC, de tamanho inigualável, de valores gratuitos foi: FERIADO MUNICIPAL NA CIDADE DE MARÍLIA para que todos fossem ao Bento de Abreu assistir o jogo. Casa mais que cheia. Lembro-me que o Jorjão ficou de fora do estádio, com o rádio na orelha direita e a esquerda no portão para ouvir a torcida. Eduardo, chegou cedo e garantiu seu lugar: o último degrau de arquibancada do tobogã. Levantou-se toda uma população. Imaginem vocês a luta desigual: — milhares querendo ver a caveira da equipe adversária, posta em desesperadora solidão. Infelizmente, antes de começarmos a descrever os acontecimentos da partida teremos que voltar um pouco para entendermos o ocorrido. Dulcídio Boschilla é o nome do infeliz. Em 73, ele chorou emocionado após apitar o jogo entre Corinthians e Portuguesa e ser elogiado pelos dois lados. Apitou a final do Paulistão de 87, apesar de ter sofrido um grave acidente de carro dezoito dias antes, na Rodovia Castelo Branco, quando faleceu sua segunda esposa, Berenice Bialski. Ele voltava de Tupã, onde tinha apitado a final da Terceira Divisão Paulista, entre Tupã e Palmital, Foi um dos mais emblemáticos árbitros de todos os tempos no futebol brasileiro.
Orgulhava-se de, em 26 anos apitando partidas de futebol, jamais ter tido padrinho que o ajudasse nas escalas. Talvez por isso, jamais chegou ao quadro da Fifa. Era rigoroso e durão. Veio para Marília de Belo Horizonte, passando por São Paulo. Chegou num calor de quarenta graus ás cinco da tarde.
Antes da partida, o MAC solicitou que os torcedores aplaudissem o árbitro, e entregou-lhe flores pela recente perda de sua esposa. Tudo pronto para que o jogo fosse neutro em relação a arbitragem. A nossa torcida pulsava o Marília Atlético Clube. 15 mil vozes empurrando inconstantemente. Amigos, eu já lhes disse: não existe nada mais lindo que a torcida alviceleste. Não precisou de muito tempo. Aos 10 minutos, Careca abre o placar cortando o lateral e deixando a bola no ângulo. Um golaço, uma pintura para ser desenhada na parede do Abreuzão. O Estádio veio abaixo. Eu vos digo: — “esquecer” não é bem o termo. Ou por outra:
— o mariliense pode “esquecer” da boca para fora. Mas na verdade esse jogo também é inesquecível. Insisto: — apesar de todo o ocorrido e toda ingratidão, é
imortal. E por isso, porque ninguém pode enxotá-lo da nossa memória. Não havia ninguém, disposto a aplaudir ou simplesmente
reconhecer os nossos possíveis méritos. Estávamos subindo para a A-1, em puro êxtase. Até que chega o momento de sermos operados. Uma falta besta para o Usina no meio campo, bola alçada na área e o nosso árbitro marca pênalti para o Usina, só ele, o único no estádio todo que viu. Nem o próprio treinador adversário acreditou. Naquele tempo os salafrários podiam apitar as partidas e com que glorioso, com que genial descaro: — esse juiz era um canalha em estado de pureza, de graça, de autenticidade. Um a um com o Marília nervoso demais. Dois jogadores nossos expulsos no segundo tempo, com uma arbitragem nas palavras de Eduardo após a partida: "tendenciosa e covarde". Está provado que o árbitro entrou em
campo para meter a mão no bolso do Marília.
O ladrão fez o diabo para impedir o triunfo maqueano. Inventou um
pênalti, ou seja, deu um gol de presente a eles. Perseguiu os nossos
jogadores com um descaro gigantesco. Não se conhece, na história do
futebol, um apito tão cínico e tão vil. O seu pecado mais horrendo, porém,
foi a expulsão de nossos jogadores. Com o final por um a um, o MAC ainda dependia só de si mesmo para subir. O Paulista de Jundiaí tinha vencido nada mais, nada menos que NINGUÉM. Entraram em campo e firmes pelo dinheiro que Farah havia garantido, aproveitando dois desfalques do Marília seguraram bravamente o empate no zero a zero. Ainda tínhamos a vaga, bastava o Usina não vencer dentro de casa a equipe do Rio Preto. O suposto jogo (não se pode chamar aquilo de jogo) em Araras seguia zero a zero até os 30 do segundo tempo. Quando o ZAGUEIRO do Rio Preto faz um gol descarado, CONTRA. Um a zero, e o Usina sobe naquele ano vergonhosamente por ter feito melhor campanha. Com uma humildade assim abjeta, ninguém consegue atravessar a rua, sob pena de ser atropelado por uma carrocinha de Chica-bon. — O canalha pode existir, mas contido, frustrado, inédito, sem função e sem destino. Aprontou-nos essa, uma falcatrua de grana e um abuso de contatos e jeitos de cartolas, que foi agora lembrado e eternizado, enquanto existir ao menos internet: na história do Marília Atlético Clube.




























