quarta-feira, 22 de junho de 2016

Os alambrados do Bento de Abreu

Uma torcida não vale a pena pela sua expressão numérica. Ela vive e influi no destino das batalhas pela força do sentimento. E a torcida maqueana leva um imperecível estandarte de paixão. É fato que o time cresce quando tem o apoio da torcida. E no caso do Marília esse casamento é histórico, sendo decisivo para vários momentos do clube. Existe a tradição da geral. Ah, a geral tem histórias e histórias, pra contar, dar e vender. O vender inclui o amendoim, o espetinho e o refrigerante. Já disse a vocês sobre o Zeca, aquele sujeito que gostava mais do alambrado que da mãe. Zeca tinha uma paixão inacreditável por aquele "quase setor" do Bento de Abreu. Fazia questão de divulga-lo e esclarecer sua importância para o Marília, para o futebol, para o mundo. O coitado aprendeu tudo isso sozinho, na marra. Nós de Marília não podemos excluír os alambrados das atribuições da nossa torcida. É uma tradição desde as crianças aos senhores.
A torcida no alambrado pode salvar ou liquidar um time. Zeca sabia bem disso, e mesmo sendo um maqueano digno de muito respeito, já praticou muito da cornetagem. Os alambrados falam, amigos. Dependendo do seu humor, ele eleva a equipe aos deuses ou a joga no inferno. Essas vozes que ecoam dos alambrados tem a face do torcedor maríliense, sem contar que é muito democrático. Não tenho hoje um jogo para dizer-lhes, são tantos com mãos e olhos nas grades que os filmes passam sem que dê tempo de eu escreve-los. Já vivemos e sentimos de tudo naquelas grades, sentimos muitas vezes o seu fel, e outras tantas o seu mel. Juntar-se na grade pra pressionar o adversário, conversar com os jogadores, ser treinador por 90 minutos, não tem preço. Infelizmente sabemos que se tivesse, no futebol de hoje custaria muito caro. Confesso a vocês que não gostam de estar ali: não é nada confortável. Zeca deixa isso muito claro: ele se dedica a sofrer pelo Marília. É uma vigília religiosa. Não ver o batedor do escanteio, não ver se a bola saiu do outro lado (e gritar mesmo assim), estar em pé os noventa minutos. Pra mim, é mais do que comum, se torna uma obrigação. Existe ainda quem nos julga, por não deixar a tradição morrer e não deixar com que o futebol no interior também se torne elitizado. É muito mais que estar ali, é resistência. Aqui, em toda a extensão do território nacional, começávamos a desconfiar que é bom, que é gostoso estar ali. Está claro que não estou subestimando o peito dos outros, pelo contrário. Mas estou estufando o meu e de meu companheiro. Por exemplo: cada grito vindo do alambrado é um hino nacional. É a vontade de ver o alviceleste vencer, estar na beira do campo, jogando junto. A vitória muitas vezes deveria ser dada a nós. Pela injeção de auto-estima ou pela desmoralização do adversário. Calculo que, a essa altura, as cinzas do futebol moderno em Marília haviam de estar humilhadíssimas por terem metido um acrílico ridículo nas cadeiras cativas. Só os bobos, só os tapados não enxergam o quão prejudicial ao MAC é aquilo. Mas eu vos digo, aqui, que ninguém nos ouve: — nós continuaremos. Amigos, nada descreve o uivo, o urro que soltamos aqui quando o Zeca atirou o seu berro bestial: — “Gol!”. E o bonito é que esse torcedor não se abala, nem se entrega. Possui a sanidade mental. Debaixo daquela tensão emocional dantesca, só o torcedor alambradino suportaria tanta carga histórica. Eu já disse que, no formidável e harmônico esforço do escrete, todos parecem merecer uma glória igual. É dificílimo destacar este ou aquele. Mas nos momentos de Marília Atlético Clube quase nunca destacamos ou damos os devidos créditos a quem constrói a vitória e a derrota: o alambradino maqueano. O torcedor estava errado quando o imaginava incapaz de paixão, incapaz de gana, incapaz de garra. O alambradino é capaz de tudo, inclusive nada. Após a partida, ele mais que o jogador: molhou a camisa, derramou até a última gota de suor, matou-se de torcer. Volta pra casa satisfeito com seu desempenho. Ou não. Ou um não enorme. Os simples, os bobos, os tapados hão de querer sufocar a vitória nos seus limites estritamente esportivos. Ilusão! Nós conhecemos a verdade! O problema de forma física e técnica não existe para nós, nunca existiu. Estamos acima do bem e do mal.

As imagens são de Gabriel Coiso.









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