sexta-feira, 3 de junho de 2016

Conveniência de ser covarde, maqueanos.

Há tempos, fui ao Mineirão, ver um jogo do Marília Master. E confesso: — sempre considerei o Mineirão tão longínquo, remoto, utópica como Constantinopla, Istambul ou Vigário Geral. Pensando sempre no escudo do MAC no peito de alguns amigos anciãos. Conclusão: — recrudesceu em mim o ressentimento contra qualquer espécie de viagem. Mas, enfim, cheguei e assisti à partida. Nos primeiros trinta minutos, houve tudo, rigorosamente tudo, menos futebol. Uma vergonha de jogo. A partir dali então o jogo é só lembranças de um episódio que parece se repetir todas as partidas no Abreuzão. Quando surge a figura inesperada do árbitro, ou seu juiz, ou filho da puta pros menos íntimos. Ele é a figura que consegue mudar um match de quinta classe, deixando-o em uma dimensão nova e eletrizante. Eis o fato: — um jogador qualquer enfiou o pé na cara do adversário. Que fez o juiz? Arremessa-se, precipita-se com um élan de Robin Hood e vem dizer as últimas ao culpado. Isso não pode resultar em coisas positivas. Em Marília, a arbitragem entra em choque tão rápido quanto Carlos Alberto. Entretanto, aquele valente senhor decidiu enfrentar o jogador alviceleste. O clima virou, de repente uma chuva de cuspes vindos do alambrado sobre os bandeirinhas, a fúria de outros torcedores entravam dentro do campo.  Mas o episódio não esgotara ainda o seu horror. Restava o desenlace: — a fuga do homem. Teve de sair no pinote, sem chances de conversa. O elenco maqueano inteiro trataria de eliminá-lo, e se não o fizessem: a torcida faria. Pois o juiz esbofeteado não teve meias medidas: — deu no pé. Convenhamos: — é empolgante um pânico assim taxativo e triunfal, sem nenhum disfarce, nenhum recato. Digo “empolgante” e acrescento: — raríssimo ou, mesmo, inédito. Via de regra, só o heroísmo é afirmativo, é descarado. O herói tem sempre uma desfaçatez única: — apresenta-se como se fosse a própria estátua eqüestre. Mas a covardia, não. A covardia acusa uma vergonha convulsiva. Tenho um amigo que faz o seguinte: — chega em casa, tranca-se na alcova, tapa o buraco da fechadura e só então, na mais rigorosa intimidade — apanha da mulher. Um fato covarde, e fatos covardes socialmente não são considerado fatos. É complexo como o árbitro, como o Marília, e como sua torcida. A covardia é confusa, principalmente se na Vicente Ferreira. Nem mesmo o setor mais elitizado do estádio deixou de fazer parte desse momento histórico, urravam: CANALHA, CANALHA. Quando eu falo de violência naquele local, não posso, jamais, ser exagerado.O MAC é violento com ele mesmo. Pois bem. Ao contrário dos outros covardes, que escondem, que renegam, que desfiguram a própria covardia — o juiz correu como um cavalinho de carrossel. Note-se: há hoje toda uma monstruosa técnica de divulgação, que torna inexeqüível qualquer espécie de sigilo. E, logo, a imprensa e o rádio envolveram o árbitro. Essa covardia fotografada, irradiada, televisionada projetou-se irresistivelmente. E quando, em seguida, a polícia veio dar cobertura ao árbitro, este ainda rilhava os dentes, ainda babava materialmente de terror. Acabado o match a multidão veio passando, com algo de fluvial no seu lerdo escoamento. Mas todos nós, que só conseguimos ser covardes às escondidas, tínhamos inveja, despeito e irritação dessa pusilanimidade que se desfraldara como um cínico estandarte. Quantas vezes nossa covardia nos impede até mesmo de declarar amor eterno ao nosso clube, no meio da cancha? Quantos covardes não assumem nossa camisa? Esses não nos representam amigos. Por Nelson, claro e sempre.



Nenhum comentário:

Postar um comentário